A ortodontia infantil desempenha um papel determinante na promoção de um desenvolvimento dentofacial equilibrado, sendo hoje amplamente reconhecida como uma área central da medicina dentária preventiva.
Num contexto em que as crianças estão sujeitas a uma multiplicidade de fatores ambientais e comportamentais que podem comprometer a harmonia do crescimento facial, a ortodontia interceptiva e preventiva surge como uma resposta clínica estratégica.
O que é a ortodontia interceptiva?
A ortodontia interceptiva é, de facto, um ramo especializado da ortodontia que intervém durante a dentição mista — fase em que coexistem dentes de leite e permanentes – com o objetivo de corrigir disfunções em desenvolvimento. Diferentemente da ortodontia corretiva, que atua sobre problemas já instalados, a abordagem interceptiva visa interromper ou redirecionar alterações esqueléticas e dentárias antes que se agravem.
É neste contexto que a ortodontia preventiva também se revela fundamental, já que procura evitar o aparecimento de maloclusões através de medidas simples, como a remoção precoce de hábitos orais prejudiciais ou o acompanhamento do espaço disponível para a erupção dentária.
A importância do diagnóstico precoce
Um dos principais benefícios da ortodontia interceptiva reside na plasticidade dos ossos maxilares durante a infância, o que permite guiar o seu crescimento de forma natural e harmoniosa. Nesta fase, o crescimento maxilar ainda está em pleno desenvolvimento, e a
intervenção ortodôntica pode promover uma remodelação funcional da estrutura óssea, facilitando a correta oclusão dentária.
A avaliação precoce permite ainda identificar padrões de desenvolvimento anómalos que podem estar associados a fatores genéticos ou ambientais. Assim, a deteção de assimetrias faciais, desvios de linha média, mordidas cruzadas ou abertas e apinhamentos dentários
precoces deve ser cuidadosamente monitorizada por um ortodontista.
Sinais de alerta na infância
Alguns comportamentos e alterações morfológicas podem servir como sinais de alerta para a necessidade de uma avaliação ortodôntica. Entre os mais relevantes destacam-se os seguintes:
Hábitos orais nocivos
- Sucção digital prolongada (chupar o dedo ou chupeta além dos 3 anos);
- Respiração oral ou dificuldades respiratórias nasais crónicas;
- Interposição lingual ao engolir ou ao falar;
- Bruxismo infantil (ranger dos dentes).
Alterações dentárias e funcionais
- Perda precoce de dentes de leite, sem o devido acompanhamento do espaço;
- Dificuldades mastigatórias ou fonação alterada.
Estes fatores, quando não são corrigidos atempadamente, podem comprometer o equilíbrio entre as arcadas dentárias e afetar negativamente o crescimento facial.
Aparelhos utilizados na ortodontia infantil
Durante a fase de dentição mista, recorre-se frequentemente a aparelhos ortodônticos funcionais e removíveis que visam orientar o crescimento ósseo, estimular a musculatura orofacial e corrigir hábitos prejudiciais.
Tipos de aparelhos mais comuns
- Disjuntores palatinos: eficazes no tratamento de mordidas cruzadas posteriores causadas por maxilas estreitas;
- Mantenedores de espaço: conservam o espaço de dentes decíduos perdidos precocemente, prevenindo desalinhamentos;
- Aparelhos de avanço mandibular: promovem a modulação do crescimento mandibular em casos de retrognatismo.
A escolha do aparelho dentário para crianças deve ser feita de forma personalizada, com base numa avaliação clínica rigorosa, tendo em conta fatores como a idade da criança, o tipo de má oclusão, o grau de colaboração esperado e o estádio de desenvolvimento dentário e esquelético.
Logo, esta variedade de aparelhos permite ao ortodontista selecionar o instrumento mais adequado a cada caso, otimizando os resultados terapêuticos com intervenções minimamente invasivas.
A importância da abordagem multidisciplinar
A ortodontia interceptiva não atua isoladamente. O sucesso do tratamento depende muitas vezes de uma colaboração estreita com outras especialidades médicas, nomeadamente a pediatria e a otorrinolaringologia.
Especialidades complementares
- Crianças com hipertrofia das adenoides ou amígdalas podem beneficiar de tratamento combinado, que inclui correção ortodôntica e intervenção médica otorrinolaringológica;
- A terapia miofuncional, frequentemente promovida por terapeutas da fala, ajuda a corrigir padrões musculares disfuncionais, como a interposição lingual ou a respiração oral, que estão diretamente relacionados com o posicionamento dentário
e o equilíbrio orofacial. Estes padrões, quando desajustados, podem comprometer os resultados de um tratamento ortodôntico, pelo que a intervenção miofuncional torna-se um complemento importante ao plano ortodôntico.
Esta abordagem integrada potencia os resultados do tratamento ortodôntico e contribui para a estabilidade a longo prazo.
Em conclusão, a ortodontia infantil, particularmente na vertente preventiva e interceptiva, é essencial para garantir um desenvolvimento facial saudável e funcional. O diagnóstico precoce e a intervenção atempada permitem não apenas evitar complicações futuras, mas também promover a autoestima e o bem-estar da criança.
Deste modo, pais e cuidadores devem estar atentos aos primeiros sinais de alerta e procurar aconselhamento junto de profissionais especializados, assegurando uma abordagem personalizada e multidisciplinar.